Parque Antarctica

Inauguração

03/05/1902

Recorde de Público

40.283

Parque Antarctica, Estádio Palestra Italia, Allianz Parque. A casa do Palmeiras já teve diferentes nomes e diferentes formatos, mas sempre a mesma localização, sempre sob o mesmo solo que recebeu a equipe palestrina pela primeira vez em 1917 e que sedia os jogos do Verdão até hoje. Uma história que remonta à virada do século 19 para o século 20 e envolve uma tradicional empresa brasileira.

Em 1902, a Companhia Antarctica Paulista (que em 1999 se uniria à Brahma para a criação da Ambev, uma das maiores multinacionais de bebidas em todo o mundo) decidiu abrir ao público o amplo espaço onde funcionava a cervejaria. Surgia então o Parque da Antarctica Paulista, principal área de lazer da cidade com 300 mil metros quadrados de vasta área verde, jardins, lagos, parques infantis, espaços para piquenique, bailes e reuniões, restaurantes, choperia, pistas de atletismo, quadras de tênis e campo de futebol. Um paraíso, na visão da renomada escritora Zelia Gattai:

“Grande programa, o maior, o melhor de todos para mim – a ida ao Parque Antártica, na Avenida Água Branca. Ai que frio no estômago ao subir na roda-gigante! E o carrossel? Era por acaso pouco emocionante montar os coloridos cavalos de pau? Chegava a sentir vertigem naquele sobe-e-desce dos cavalinhos rodando, rodando… Havia um hábito intolerável dos adultos: plantavam-se de pé, cada qual ao lado de sua criança. Eu detestava essa proteção, preferia andar solta, galopar em liberdade. No fundo, no fundo, não seria apenas um pretexto dos sabidos para se divertirem às nossas custas? E os trenzinhos puxados a burro, circulando pelo parque todo? As carrocinhas arrastadas por bodes e carneiros? Os pirulitos de todos os formatos e cores? As bolas de ar, subindo lá no céu, presas por um barbante? O algodão de açúcar? As gasosas e os sanduíches? O Parque era divino!”, descreveu Gattai em seu livro de estreia, “Anarquistas, Graças a Deus”.

Entrada do Parque da Antarctica Paulista

Com a crescente paixão pelo futebol, que já tinha um grande número de adeptos na capital, o local era muito requisitado também para jogos de bola. Tanto que no dia 3 de maio de 1902, no gramado do Parque Antarctica, foi realizada a primeira partida oficial do Brasil, quando o Mackenzie College bateu o Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros) por 2 a 1 no duelo de abertura do primeiro Campeonato Paulista da história. Posteriormente, aliás, a Antarctica passou a alugar o campo existente no Parque, e o próprio Germânia foi o seu primeiro locatário para treinos.

Em pouco tempo, o espaço passou a ser uma referência também para a prática de diversas atividades ao ar livre, como lutas de boxe e corridas de automóveis – em 27 de julho de 1908, por exemplo, o Parque Antarctica foi o ponto de chegada da primeira corrida de carros realizada no Brasil; já em 19 de fevereiro de 1911 foi realizado ali o primeiro vôo da América Latina (um avião de correio partiu e voltou ao Parque, inclusive com presença de público pagante para acompanhar a exibição).

O caso de amor entre o Palestra Italia e o Parque Antarctica teve início em 1917. À época, os jogos eram de mando da APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), atual FPF (Federação Paulista de Futebol), e o duelo entre Palestra e Sport Club Internacional-SP, válido pela primeira rodada do Campeonato Paulista daquele ano, foi marcado para o dia 21 de abril de 1917, um sábado. Apesar de recém-criado, tendo estreado em competições oficiais na temporada anterior, o Palestra não tomou conhecimento do Internacional, que já havia disputado o primeiro Paulista da história, em 1902, e sido campeão em 1907. Resultado final: 5 a 1 para os palestrinos. A honra do primeiro gol alviverde no local coube a Caetano, enquanto Heitor anotou os outros quatro. Poucos dias depois, em 5 de maio, o Parque Antarctica sediou também o primeiro dérbi de todos os tempos: nova vitória palestrina, desta vez por 3 a 0, três gols de Caetano.

Entrada do Parque Antarctica em 1921

Com o decorrer da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o Germânia, clube de origem alemã, diminuiu sua atuação no futebol e repassou o contrato de locação do campo para o América F.C. (hoje extinto), que, por sua vez, devido à dificuldade econômica pela qual atravessava, começou a sublocar a área para outras equipes. Foi então que o Palestra Italia, em ascensão no cenário futebolístico da cidade (havia sido vice-campeão em 1917), ofereceu-se como co-locatário. O contrato com a Antarctica previa que o América utilizasse a estrutura nas terças, quintas, sábados e domingos de manhã, enquanto o Palestra (que antes frequentava o campo Rua Major Maragliano, na Vila Mariana) usaria o local nos mesmos dias, porém na parte da tarde, para treinos e partidas oficiais – a partir de 1919, o mando dos jogos passou a ser dos clubes. Naquele tempo, o Parque Antarctica tinha capacidade de cerca de 15 mil pessoas na arquibancada de madeira onde hoje fica a Central Oeste a no barranco onde atualmente se situa a Central Leste.

Não demorou muito e, no dia 27 de abril de 1920, o time de imigrantes italianos fundado em 1914 deu o salto mais importante de toda a sua história ao efetuar a compra do campo de futebol e de grande parte do terreno do Parque Antarctica por 500 contos de réis, uma verdadeira fortuna à época (equivalente a cerca de R$ 65 milhões – para se ter uma ideia, um terreno de 300 mil metros quadrados na região atualmente custaria em torno de R$ 350 milhões, e vale lembrar que hoje o bairro faz parte do centro expandido de São Paulo, diferentemente da década de 1920, quando se tratava de uma zona periférica da capital).

As condições de pagamento também não eram muito favoráveis: metade à vista (quitadas com o auxílio das Indústrias Matarazzo e de doação de diversos sócios e simpatizantes) e outra metade em duas prestações anuais de 125 contos de réis. Era uma aposta ousada, como se um clube quisesse comprar o Parque do Ibirapuera hoje. Mas a negociação, que ficou conhecida como “A Loucura do Século”, foi aceita de pronto pela diretoria, afinal, o sonho de ter uma casa própria já era citado nas primeiras atas do Palestra Italia – para os entusiastas da nova agremiação, não bastava ter um campo para jogar: era preciso um lar para abrigar a imensa colônia italiana.

Chegada de bonde ao Parque Antarctica

Com a venda do terreno e muito dinheiro em caixa, a Companhia Antarctica Paulista se transferiu para o bairro da Mooca e ampliou suas produções. Encerrava-se então a exitosa passagem da fábrica pelo bairro da Água Branca, de onde surgiram dois outros grandes produtos de projeção mundial: a Soda Limonada em 1912 e o Guaraná Antarctica em 1920.

Na primeira partida como legítimo proprietário do Parque Antarctica, no dia 16 de maio de 1920, o Palestra Italia aplicou uma sonora goleada sobre o Mackenzie: por 7 a 0, gols de Caetano (3), Heitor (2), Fabbi e Imparato. Pouco depois, aquele campo (que já havia sediado o primeiro confronto entre um time paulista e um time carioca na cidade – AA das Palmeiras 1 x 0 Botafogo-RJ, em amistoso em 1908) recebeu a primeira partida da Seleção Brasileira fora do Rio de Janeiro (então capital do país) – o Brasil bateu a Argentina por 2 a 1 e conquistou a Copa Rocca de 1922.

A comunidade palestrina conseguiu, com dificuldades, pagar a segunda parcela da compra do Parque. Porém, para quitar o último débito (de dezembro de 1922), precisou vender uma parte do terreno para o conde Francisco Matarazzo por 187 contos de réis – o local corresponde à área onde, entre outros empreendimentos, funcionou o Shopping Center Matarazzo e hoje está o Bourbon Shopping São Paulo.

Honrado o compromisso, o mais tradicional campo da cidade era agora propriedade definitiva do Palestra Italia. Mas, para as pretensões de grandeza da colônia, um campo ainda era pouco. A meta agora era fazer dali um verdadeiro estádio. Para isso, graças ao empenho de sua torcida, o clube proporcionou melhorias gradativas no local, sempre com o espírito vanguardista que o caracteriza – o Palestra, por exemplo, foi o primeiro clube a criar um setor para a imprensa (um banco-carteira, como de escola, para facilitar as anotações dos jogos; antes, os jornalistas ficavam no meio do público nos estádios).

Avanço das obras nos anos 30

A pedra fundamental do novo estádio foi finalmente lançada no dia 10 de março de 1929, mas o Palestra continuou atuando no Parque esporadicamente enquanto aconteciam as reformas. Foi assim até o dia 4 de dezembro de 1932, na goleada por 9 a 1 sobre o Germânia (gols de Sandro, quatro vezes, Romeu Pellicciari, duas vezes, Avelino, Carnera, Lara e Imparato).

Oito meses depois, era apresentado à cidade de São Paulo o Stadium Palestra Italia. Tratava-se do maior, mais moderno e imponente estádio do país na época e o primeiro da capital paulista a ter arquibancadas de concreto armado, com capacidade total de 30 mil pessoas. No espaço onde está a atual Central Oeste foi construída uma tribuna coberta, reservada aos associados do clube. Do lado oposto, na atual Central Leste, havia uma outra arquibancada de cimento. E pela primeira vez foram colocadas arquibancadas, de madeira, atrás dos gols. Outras novidades para a época eram as instalações existentes na parte da tribuna, como um grande bar para o público e os vestiários das duas equipes e dos árbitros.

A inauguração oficial ocorreu em 13 de agosto de 1933. Na ocasião, o Palestra Italia venceu o Bangu por 6 a 0, em jogo válido pelo Torneio Rio-São Paulo – primeiro campeonato da era profissional do futebol brasileiro, primeiro de caráter interestadual, e que, quatro meses depois, viria a ser conquistado ali mesmo pelos próprios palestrinos. O gol de estreia do Stadium foi anotado por Gabardo (ele, Romeu Pellicciari e Avelino fizeram dois cada um). O mesmo Gabardo que, em 5 de novembro daquele ano, naquele mesmo estádio, balançaria a rede do Corinthians na inesquecível e impiedosa goleada por 8 a 0 – Romeu Pellicciari (4) e Imparato (3) fizeram os outros gols do dérbi.

Foi também naquele período que a sede social do clube foi transferida do 16º andar do Edifício Martinelli, no centro da cidade, para o entorno do estádio. E lá os anos seguiram com o Palestra cada vez mais vencedor. O time, que já havia faturado no Parque Antarctica o Paulista e o Paulista Extra de 1926 e o Rio-São Paulo de 1933, levantara também os troféus dos Paulistas de 1933 e 1936 – este último, em decisão contra o Corinthians na final, a primeira da história entre os rivais.

Ao longo do tempo, pequenas benfeitorias foram realizadas no estádio. Em 1937, o campo ganhou iluminação. Em 1949, foram colocados alambrados. Em 1951, o Palmeiras construiu sua piscina olímpica atrás de um dos gols e precisou tirar a arquibancada de madeira que ficava ali. Em 11 de setembro de 1958, a denominação Stadium Palestra Italia foi trocada por Estádio Palestra Italia durante cerimônia com o presidente da Itália, Giovanni Gronchi. A esta altura, o Pacaembu, inaugurado em 1940, já era a principal praça esportiva da cidade, e o próprio Palmeiras passou a mandar seus grandes jogos lá.

Chegava o momento, portanto, de o Palestra Italia se modernizar novamente. Assim, o último capítulo daquela fase do estádio foi escrito em 17 de dezembro de 1961, quando o Palmeiras venceu o Jabaquara (antigo Hespanha) por 1 a 0, gol de Vavá. Dispondo do dinheiro arrecadado com a venda de Chinesinho para o Modena-ITA, foram mais de dois anos e meio de reformas que mudaram a cara do local. A principal novidade da vez foi a elevação do gramado em cerca de três metros, visando acabar com os alagamentos que ocorriam ali em dias de muita chuva. Embaixo do campo, foram instalados os vestiários e os departamentos médico e administrativo. Além disso, a arquibancada atrás do gol foi unida a uma das arquibancadas centrais, gerando um formato semelhante a uma ferradura e ampliando a capacidade para cerca de 40 mil pessoas.

O agora apelidado de Jardim Suspenso foi aberto em 7 de setembro de 1964, com vitória por 2 a 0 sobre a Esportiva de Guaratinguetá, pelo Campeonato Paulista, gols de Ademar Pantera e Rinaldo. Doze anos depois da reinauguração, no dia 18 de agosto de 1976, o Palmeiras voltou a levantar um troféu no local ao vencer o XV de Piracicaba por 1 a 0, gol de Jorge Mendonça, e garantir o título paulista de 1976 – naquela mesmo noite foi registrado o recorde público no estádio antes do surgimento do Allianz Parque: 40.283 torcedores (a marca só seria batida em 27 de novembro de 2016, na vitória por 1 a 0 sobre a Chapecoense que garantiu o eneacampeonato brasileiro). Mais tarde, a marca seria batida ainda outras duas vezes: diante do Corinthians, na final do Paulista de 2018 (08/04, com 41.227 torcedores) e diante do Vitória, pela última rodada do Brasileiro de 2018, no jogo em que o Palmeiras levantou a taça do título nacional, conquistado uma rodada antes – em 02/12, com 41.256 pessoas presentes (recorde atual).

A partir de então, diversas pequenas intervenções foram realizadas para aumentar o conforto dos torcedores e adaptar as instalações às ofertas de tecnologia e materiais disponíveis. O estádio, por sua vez, seguia sendo palco de marcas históricas, como a registrada entre 1986 e 1990, quando o Verdão ficou invicto no estádio por 68 partidas consecutivas, recorde até então jamais alcançado por nenhuma equipe em seus próprios domínios.

Imagem panorâmica do estádio nos anos 90

A década de 1990 marcou a “era internacional” do Parque Antarctica (a esta altura, a arquibancada atrás do gol já havia sido unida às numeradas, completando, assim, o formato de ferradura do Palestra Italia). Depois do título paulista de 1996, obtido após vitória por 2 a 0 (gols de Luizão e Cleber) sobre o Santos na penúltima rodada, o Verdão faturou ali os dois primeiros títulos continentais de sua galeria: a Copa Mercosul de 1998 (com gol de Arce na vitória por 1 a 0 sobre o Cruzeiro na decisão) e a Libertadores da América de 1999 (graças à vitória nas penalidades após bater o Deportivo Cali-COL por 2 a 1, gols de Evair e Oseás).

Já com o Setor Visa instalado onde hoje é a Central Leste e com um novo pedaço de arquibancada erguido ao lado das numeradas cobertas, perto das piscinas, o Palmeiras faturou em 2008 o seu último título antes de fechar as portas para sua terceira grande reforma. O troféu do Campeonato Paulista veio após goleada por 5 a 0 sobre a Ponte Preta, gols de Alex Mineiro (3), Valdivia e Ricardo Conceição (contra).

No dia 9 de julho de 2010, em amistoso contra o Boca Juniors, o Verdão entrou em campo pela última vez no Palestra Italia. A partir de então, seriam quatro anos de obras até o surgimento do Allianz Parque, hoje a principal arena multiuso da América Latina. Encerrava-se ali um ciclo de mais de 100 anos, em um gramado histórico por onde desfilaram talentos como Charles Miller, Friedenreich, Leônidas, Garrincha, Pelé e todos os grandes ídolos do Alviverde Imponente em seu primeiro século de vida, com destaque para Heitor (maior artilheiro do local), Marcos (jogador que mais atuou) e Ademir da Guia (dono da maior sequência invicta de jogos, com 61 partidas sem perder).

Quem mais jogou
Total
1 Marcos 212
2 Ademir da Guia 184
3 Heitor 171
4 Galeano 167
5 Velloso 153
Quem mais fez gols
Total
1 Heitor 175
2 Caetano Imparato 72
3 Luizinho Mesquita 65
4 Lara 61
5 Evair 54

1065
Vitórias

317
Empates

188
Derrotas

3693
Gols Marcados

1485
Gols Sofridos

Títulos

Libertadores da América: 1999
Copa Mercosul: 1998
Torneio Rio-São Paulo: 1933
Campeonato Paulista: 1926, 1933, 1936, 1976, 1996 e 2008
Campeonato Paulista Extra: 1926 e 1938
Torneio Início do Campeonato Paulista: 1927, 1939 e 1969
Taça Competência: 1926 e 1927

Primeiro jogo

5

1

Maior goleada

11

0

Última vitória

4

2

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